domingo, 7 de fevereiro de 2010
Vozes
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
O sétimo
Me pego sempre desatando os nós enquanto alguém ri uma risada fina bem longe.
Em meio aos meus devaneios posso garantir que conheço aquela voz.
Algumas horas depois reconheço: é minha.
Eu rio, ao longe, enquanto trabalho; mão roxa de tanto forçar o afastamento das cordas; corpo dele e loucura minha, juntos numa encenação patética sobre laços e pessoas que dizem sentir.
Não sente, eu sei.
Não sente.
Não fique, vá embora.
Eu disse, desde o inicio, que depois de certo tempo seria quase impossível desatar aqueles nós, as cordas se moldariam uma a outra e se acomodariam sem perceber.
Mas mesmo assim ele fez questão de fazê-los, um por um, um atrás do outro, fingindo ser regido por algum sentimento que eu já desconhecia.
E onde está você agora, enquanto as minhas mãos sangram?
Onde está você enquanto meu corpo se rasga ao olhar pra trás?
Está fazendo nós, vários, muitos, e certamente usando o mesmo motivo que me fez acreditar.
Então, com essas mãos ardendo em brasa, eu te odeio!
Simplesmente porque, depois de lançada, a flecha não volta.
meio relapsa, eu sei, mas eu tô por ai. rs
domingo, 24 de janeiro de 2010
segredos de liquidificador
para Rhaissa
Visto daqui tudo parece branco, mesmo eu sabendo que é azul. É um azul tão claro que os meus olhos insistem em enxergá-lo branco. Um branco ralo, frágil, com aparência de folha de papel seda. Não há nuvem alguma para eu brincar de imaginar formas estranhas, não há pássaros também. Mas daqui, dessa janela, tenho a impressão de que as folhas verdes estão no céu. O céu está branco, embora seja azul. Branco e frágil como uma folha de papel seda.
Me parece que a qualquer instante vai haver um barulho medonho e então o céu limpará a alma da cidade com a santa chuva. Vou sentir vontade de me purificar também, mas a chuva não tem o mesmo efeito sobre mim.
Pudesse me lavar por dentro, limpar todo o sentimento desgastado e jogar no lixo os pensamentos que aparecem sem razão. Pudesse me mudar e me formar outra, pudesse me fazer sentir limpa como não sinto há muito. Pudesse me deixar para trás. Deixar para trás essa Mariana ilusória, sonhadora de sonhos alheios, triste por opção. Esquecer minhas angustias e meus medos. Encarar minha fragilidade gritante e um tanto assustadora.
Não é possível continuar sendo Mariana sem sentir esse gosto amargo que surge, sem avisos, na garganta.
Não há como distanciar o ser do sentir.
A Mariana me maltrata, me faz acreditar em pessoas e coisas que jamais existiram. Me sinto ingênua sendo assim. Me sinto podre por achar que o mundo todo não presta, e repudiá-los por isso, enquanto a Mariana não presta também. Ela é apenas mais uma a se misturar pela multidão sem rosto, dentre as pessoas que vem e vão.
Ela não presta.
Eu não presto.
E não há novidade alguma nisso.
O estranho é que enquanto olho para o céu branco-azul, reclamo da Mariana - que não passa de mim mesma - e espero a chuva chegar, só um nome me vem à mente. Só uma esperança. Só um rosto.
E eu espero, aflita, que o telefone toque.
Espero noticias e boas novas vindas daquele sorriso bom.
Se ele soubesse que a Mariana se importa talvez ele aparecesse mais vezes.
Talvez se a Mariana falasse.
Talvez se a Mariana ligasse.
Mas o dia já está se transformando em noite e ela acredita, fielmente, que as coisas um dia se ajeitarão.
O telefone não toca.
A chuva não cai.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Falta de QI
As vozes sabem o que dizem.
E elas não vão parar, querida.
Elas não param nunca.
Só aumentam e enlouquecem e estraçalham qualquer indício de qualquer coisa.
As vozes são reais.
Não é nenhum fantasma bizarro que te acompanha, nem um anjo que lhe guarda do mal. Ela é a sua consciência estúpida falando.
Ela fala a verdade em seus ouvidos, não é, meu bem?
Eu sei; a consciência sempre fala, sempre fode e nunca falha. Foda-se o que as pessoas dizem por aí, foda-se o que elas vêem. Você é a única que sabe a verdade e isso lhe é suficiente pra findar qualquer possibilidade existente.
Você sente essa pontinha de tristeza que sempre vem acompanhada de frustração.
Você quer colocar o dedo na garganta e vomitar essa voz, vomitar o sentimento e essa confusão que lhe impede de sair de onde está.
Você está podre por dentro.
Tão podre que se pudesse se auto-destruiria para que todas as pessoas pudessem ver sua verdadeira face. Essa carinha bonitinha não passa de uma embalagem qualquer, o que tem dentro é ralo, é podre e muito, muito triste. E você tenta ficar em paz, tenta se erguer sozinha quando descobre que está jogada no chão. Mas é difícil, não é? Sempre tão difícil. E você ainda diz que se soubesse não teria feito, que se soubesse que iria acabar no chão não teria saído dessa sua redoma de vidro tão segura.
Impossível, meu bem.
Totalmente.
Completamente.
O problema dessa maldita queda é que a gente só percebe que caiu quando já está no chão. Só então a dor te corta, o desespero te dilacera, a boca é tomada por um amargo quase conhecido e a ânsia se torna inevitável.
Enfia logo esse dedo na garganta, pra vomitar as palavras não ditas, garota.
Sem êxito?
Sem êxito?
Pois é...
Dessa vez você não as poupou. Dessa vez você disse tudo, mais do que devia, e ainda repetiu por medo de mau entendimento.
Burra!
A brincadeira se resume em cometer o crime e não se entregar, entendeu?
Você sempre se entrega, sempre conta os detalhes e mostra as armas manchadas pelo sangue alheio.
Qual a sensação, hein?
O seu veneno não mata, gracinha...
Seu veneno só destrói, corrói, deforma. Seu veneno se resume em jogar o outro no chão apenas com um sorriso.
"Como me deixei envolver?"
É essa a pergunta que te soca a cara, não é?
E eu te respondo, gatinha: você não deixou porra nenhuma, você não tem poder algum.
Você nem sabe o que te move.
Você sabe que sente alguma coisa, mas nem sequer sabe nomeá-la.
E o pior de tudo: o assassino sabe que te acertou. Sabe que você esta no chão e que, agora, prova uma dose do que injetava nos outros. Ele, com um sorriso no rosto, ainda estende a mão e diz que se você quiser ele retira todo o veneno que vaga no seu sangue.
Tão igual a você, não é, gracinha?
Mas ele retira só se você quiser, ok?
E acredite, criança, ele tem esse poder.
E alguma coisa, dentro de você, diz que se ele se prontificar a amar, um pouco que seja, você aceita morrer todos os dias. Morrer nos braços do assassino, nos lábios. Se perder na boca que te consome e no corpo que tanto deseja. Poderia ser assim, mas você entregou o jogo antes da hora. Jamais se deve dizer o que sente, meu bem.
Me escute, garota. Me escute, pois eu sei muito bem o que eu digo.
Vá pro banheiro e tente vomitar esse bolo que está preso na sua garganta.
Fume se quiser.
Grite se quiser.
Tome um banho pra tentar limpar a alma suja.
Faça qualquer coisa.
Qualquer cafonice, desesperada, de garota apaixonada, também é valida, ok?
Só não quebre o espelho, e nem pense em por as mãos naquele maldito telefone.
Ele não precisa saber o quanto você precisa que ele saiba.
Ele não precisa saber de nada.
Ele não quer saber, querida.
Vocês não combinam, meu amor.
Não vai dar certo, acredite em mim.
A idéia de desfazer o feito só o ajuda a se afastar do que ele não quer. Ele não quer querer e não quer que você queira. Ele não quer e ponto. Nunca quis.
Faça o que você achar que deve ser feito, te dou total liberdade pra enfiar o dedo na garganta quantas vezes quiser.
Vá. Tente vomitar a porra de sentimento, os pensamento, a podridão que te consome.
Faça tudo.
Eu sou real, querida.
Eu sou real e sei, muito bem, tudo o que lhe digo.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Corrompido
Abre a janela: bom dia.
Do outro lado o silencio, do lado de dentro o vazio.
Repete: bom dia.
Do lado de fora o silencio, dentro do quarto apenas o mofo das paredes. Todos os dias ela olha para o mofo e o mofo olha para ela, tentando entender como eles foram parar ali.
De onde surgiram?
Até ontem não havia nada.
Até ontem respondiam aquele insistente bom dia.
Até ontem ela sorria ao olhar as paredes limpas e ao ouvir a voz dizer o quão bom o dia poderia ser.
Até ontem.
Mas, agora, parece que o ontem já faz tanto tempo...
Fecha a janela: saco!
Perde-se debaixo do cobertor gasto, se mata de cólera; dorme.
Abre a janela: bom dia.
Do outro lado o silêncio.
É vicioso.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Disritmia
Eu o imagino caminhando devagar, lento, passo a passo, em minha direção. Ele vai sorrir e me abraçar com aquele abraço que desde sempre foi tão nosso, vai dizer coisas sem sentido e eu vou sorrir, mesmo que eu não queira, só para mostrar minha felicidade em vê-lo caminhando, passo a passo, até mim. Talvez ele reclame do cheiro de cigarro e depois diga que eu preciso beber menos e me entregar mais. É claro que dirá que tudo não passou de um pesadelo - essa parte é fundamental.
Apenas um pesadelo, criança: dirá, com as mãos cravadas em minha cintura.
Eu vou permanecer quieta e sorrindo, mesmo que eu não queira, só para mostrar minha felicidade em tê-lo aqui. Vai ficar um tempo me olhando com cara de bobo e dirá, centenas de vezes, o quão bonitinhos são os meus trejeitos, o quão bonito é o meu sorriso e o quanto não entende o que eu espero das pessoas. Nesse momento eu vou pensar em beijá-lo para fazer com que aquela boca, que fala demais, se cale. Vou pensar e desejar e até sentir a língua dele tocando a minha.
O máximo que farei, sem pensar, se resume a tirar o sorriso do rosto - sem mas nem por que.
Vou deixar meu sorriso se esvair pelo desejo e pelas palavras não ditas. O silencio vai ficar sentado entre nossos corpos, tão amigos quanto amantes, e eu vou esperar, ardentemente, sua boca colar na minha. Espero. Espero. E no meio desses segundos, que mais parecem a eternidade, vou me encontrar em certos devaneios inevitáveis.
Vou olhá-lo e não vou reconhecê-lo.
Vou repudiar seu abraço e dizer, sem precisar falar, que o amargo daquela boca me enoja. Em minha mente vou idealizá-lo caminhando devagar, lento, passo a passo, indo embora. Eu vou olhar aquelas costas e vou maldizer todo, e qualquer, desejo que apareça ao ouvir seu nome. Vou odiá-lo por três eternos segundos...
Até ele sorrir e dizer: foi tudo um pesadelo, minha menina.
Então o nosso abraço vai nos unir sem ser necessário dizer nada. A mão que se encontrava em meus cabelos deslizará, agora, até minha cintura e ali permanecerá. Nossos olhos se encontrarão, e se perderão, até uma boca encontrar a outra. Acontece. Enfim acontece: o beijo poético. As bocas, de tão amigas, se reconhecem de imediato. O beijo flui. Faz renascer o desejo de ficar perto, ficar junto. A mão está cravada em minha cintura enquanto eu tento fazer com que ele entenda que eu não espero nada das pessoas. Eu jamais espero. O tempo nunca foi, e nem será, o aliado de sentimento algum, meu bem. O tempo traz o esquecimento. O tal esquecimento que em certas horas me parece tão encantador. O esquecimento me traz a calmaria e os passos que caminham pro extremo oposto.
Viro o rosto.
Saio correndo sem me importar com os pedaços que ficam pelo caminho.
Longe dos olhos, longe do coração.
Abro os olhos.
Enxergo tudo.
Enxergo o caos.
Em minha frente, com as mãos coladas nas minhas, se encontra o novo. Ao longe, meio apressado, posso ver as costas que eu tanto temi enxergar. Os passos, ligeiros, se seguem na direção oposta. E eu me encontro sorrindo, mesmo sem querer, para mostrar a minha satisfação pelo desfecho da história. Sorrindo para dizer que eu fiz, finalmente, a coisa certa. Sorrindo para dizer que eu não posso mais enquanto o novo me encara e eu luto contra o coração que insiste em reviver - ou reavivar - sentimentos mortos.
Em meio aos meus devaneios me imagino correndo e correndo até alcançá-lo e fazê-lo entender o que eu espero das pessoas.
Até direi: eu espero por você.
E ele entenderá, de uma vez por todas, que é necessário aceitar meu amorzinho ralo, e tosco, e que é a única coisa que eu tenho para oferecer e só ofereço a ele e a mais ninguém. Ele vai sorrir, mesmo sem querer, só para mostrar que ele entende o que eu estou dizendo.
E eu...
Eu vou embora.
Volto para casa com a certeza de que ele jamais entenderá coisa alguma. No meio do caminho ele vai pedir que eu volte, mas eu estarei longe demais para ouvi-lo. Ele vai correr e não vai me alcançar. Vai se explicar e eu, como criança mimada que só pensa em dar o troco a todo custo, vou me negar a entender.
Antes de me entregar ao novo ainda vou me obrigar a olhar pra trás e ver como era o caminho. Ele ainda estará lá, caminhando, apressado, na direção oposta. De súbito imaginarei outro ser a esperá-lo e então vou passar a acreditar que aquilo que eu pensava ser tão nosso sempre foi de qualquer um.
Choro pela certeza estampada nas paredes.
Choro por saber que a minha verdade nunca passou de uma mentira rala (e eu, tola, preocupada com a escassez do meu sentimento).
Corro.
Corro na direção oposta.
Me deparo com o novo que me sorri enquanto aperta minhas mãos. Meio desajeitada levo as mãos até minha cintura e o beijo como se fosse a única coisa que eu precisasse naquele momento.
Enquanto o coração me faz relembrar a imagem das costas eu o beijo e repito, mentalmente, a mesma frase até ela se tornar certeza: Longe dos olhos, longe do coração. Longe dos olhos, longe do coração. Longe dos olhos, longe do coração. Longe dos olhos, Longe dos olhos, Longe dos olhos... Longe do coração.
Baby, when I know you're only sorry You got caught
sábado, 2 de janeiro de 2010
duas décadas
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
uma nota:
domingo, 20 de dezembro de 2009
ei
e leiam o texto anterior porque até eu achei ele bonito :D
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
A verdade por trás do sorriso
Passei dias observando o girar daquela roda. Dias me encantando com as luzes que a cercavam e com o movimento que ela fazia.
Dias inteiros - senão meses.
E então, no meio de uma coragem súbita, decidi rodar também. Entrei para roda. Roda gigante, brilhante, produtora de sorrisos fáceis. Eu quis ver o mundo girar. E agora estou aqui. Rodando e rodando e longe, muito longe, do chão.
Eu quero sair, quero fazer a roda parar para que eu desça. Quero deixar de rodar com a roda, mas eu não consigo. Olho para os lados e as pessoas estão sorrindo e, eu não entendo o porquê de tanto fingimento. A moça de preto, que não para de me olhar, chegou a chorar de tanto desespero, eu vi. Eu juro que eu vi. Mas quando os olhares a cercam ela escolhe o sorriso mais bonito e coloca no rosto.
Às vezes eu acho que é tudo uma armação para fazer a gente entrar na roda, noutras penso que aquele fingimento é a única verdade absoluta que a cerca. Colocar um sorriso no rosto, mesmo sofrendo, não deve doer tanto quando essa é a única coisa que está ao seu alcance.
Eu olho para o lado, meio sem jeito, com medo de mostrar meu pavor, e ainda encontro o rapaz que me encorajou a entrar. Ele segura a minha mão às vezes, noutras ele segura, fortemente, a mão da moça de preto.
Deve ser por isso que ela me olha tanto.
Acho que antes, da minha coragem aparecer, a atenção do rapaz, encorajador, era só dela, apenas ela segurava as mãos quentes que acalmam.
Agora ele, gentil, se divide em dois.
Se divide e se diverte.
O sorriso nunca o abandona e eu o vi, durante aqueles dias, sair sempre com um sorriso nos lábios. A moça de preto eu só conheci quando entrei.
E foi então que eu entendi como a roda gira.
Eu nunca tinha a visto porque ela jamais saiu daqui. As pessoas que conseguem sair saem felizes. As tristes, não. As tristes ficam. E elas não ficam apenas por serem tristes, muito pelo contrario: elas ficam tristes por não conseguirem sair.
Eu olho para o rapaz.
Eu olho para moça.
Eu penso em contar a ela sobre minha vontade de voltar para casa, imaginando que ela me ajudará ao saber que eu, enfim, sumirei e o rapaz voltará a ser só dela.
Me calo.
As mãos dele estão nas minhas e eu sinto aquela coisa que eu ainda não sei nomear, mas que, com empenho, me emudece. Eu vejo alguma verdade, qualquer uma, escondida naqueles olhos. Ele pede, num gesto, que eu fique. Pede para eu ficar por perto, para eu permanecer aqui.
Eu acredito.
Eu fico.
Me sacrifico apenas por saber que as mãos me acalmarão durante o desespero.
Sem que eu pudesse evitar, passei a olhar, descaradamente, para moça. Ela deve imaginar, como eu imaginei, que a olho única e exclusivamente por ciúme do rapaz.
Ciúme: é essa a palavra-chave - senão o sentimento.
Mas eu sei, eu sei que não é apenas isso. Não há só isso. Eu tento me encorajar a deixar tudo para trás, tudo de lado. Tento imaginar o quão felizes eles poderão ser se eu descer da roda. Se eu desistir de tudo. Se eu soltar essa mão que, no momento, parece ser a coisa mais importante que eu tenho.
Às vezes, no ápice da loucura, eu tento convence-lo a fazer a roda parar de girar, mas ele não quer e eu, por mais triste que seja admitir, o entendo. Esteve tanto tempo parado, tanto tempo com os pés cravados ao chão. É encantadora a maneira como ele segura minha mão e pede pra eu ficar.
Seria ideal se, talvez, eu fosse à única a conhecer o calor daquelas mãos.
Os dias passam e eu descubro as pessoas que o cercam.
Há outras moças; muitas.
Moças que ele acalma enquanto eu durmo; e há uma, única, que ele deixou no chão - a mais importante, talvez, a que faz que com que ele pare de girar com a roda.
Ele pede para que todas fiquem, eu sei. Ele não desiste de nada e não quer sair da vida de ninguém. Às vezes eu finjo que durmo só para vê-lo tocar uma das desconhecidas. Em noites assim eu choro, baixinho para que ele não me ouça, e ao fim do choro não encontro o verdadeiro motivo.
Não sei se choro por não conseguir deixar a roda, e seguir em frente, ou por saber que quando a roda parar, de fato, ele voltará e encontrar a única que realmente importa.
Talvez eu queira ser importante.
Acho que por mais que eu queira não há como abandonar essa roda que não para. Não ainda. Não agora. A roda gira e gira e me leva para longe, às vezes para tão longe, que eu me desconheço. Passo o dia esperando os minutos da atenção direcionados a mim e qualquer sentimento inesperado me faz correr de encontro aos braços dele. Eu não sou assim. Eu não quero ser assim.
Mas parece que quanto mais a roda gira, mais eu me torno aquilo que eu não gostaria de ser.
Eu tenho tanta vontade de pular daqui, de me jogar de encontro ao chão e, de lá, dizer que dessa vez ele perdeu que eu venci que eu consegui sair da roda sozinha que eu estou feliz e que ele... Ele perdeu a chance de entrar pra história.
Essas coisas são rápidas, entende?
Quando a porta se abre você tem que estar pronto para entrar.
Estou procurando a chave para trancar minha porta, mas parece que, de propósito, só vasculho os lugares errados.
Tenho medo de trancar a porta e me arrepender.
Tenho medo de deixá-lo do lado de fora.
Tenho pena.
Tenho amor.
Talvez o amor seja a roda gigante; girando, e girando, distribuindo os papeis - triste e feliz - dentre os participantes. Talvez eu tenha inventado a roda para arrumar uma desculpa para amá-lo de alguma maneira.
Talvez tanta coisa, telespectadores.
A moça de preto me olha cada vez mais de perto e o rapaz me veste de tanta confusão que eu não posso lhe dizer se está perto ou longe, dentro ou fora.
Mas garanto, senhores: ele está!
E ele fica.
E ele não quer ir embora e eu não quero, de jeito algum, que ele se vá.
No fim de tudo acho que eu voltarei para o chão e encontrarei aquele que eu deixei; meu único, minha insegurança mais segura.
Acho que meu medo não deixará que eu o impeça de ir de encontro ao passado que ele tanto sente falta.
Talvez ele nunca tenha se desgrudado do passado.
Talvez ele ame, arduamente, a moça de preto.
Mas eu sei, meus senhores, eu sei que no fim eu vou encarar a verdade: a roda gigante jamais existiu.
sábado, 12 de dezembro de 2009
paredes
aliviada, eu respiro, após o vendaval, após o vento que passou varrendo minhas memórias. a princípio o odiei e fiz promessas que o obrigavam a sentir dor aflita. depois desfiz. era necessário. é necessário. foi. as coisas vão embora, cedo ou tarde, sempre vão. ele só adiantou a ida. só facilitou a perda. quanto se perde tudo, a humildade faz a compreensão surgir com mais rapidez. de outra maneira eu jamais compreenderia. o odiaria sem me importar. agora me parece estranho, e um tanto ausente, dizer, mas eu o amo; e é só.
enlouquecendo enlouquecendo enlouquecendo enlouquecendo enlouquecendo...!
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Sexta-feira, 11.
Me perder, pra te encontrar, em mil bocas que se beijam sem ser necessário fechar os olhos.
Os olhos não se fecham; ela nunca dorme.
Escreve por impulso, corre por impulso, beija por impulso.
Bebe.
Fala.
Impulso! Impulso! Impulso!
Quase um empurrão.
Quase qualquer coisa.
Quase qualquer quase.
As xícaras estão sendo quebradas na cozinha.
As toalhas estão sendo lavadas à mão.
O café está pronto e amargo.
Ela não está.
Jamais estará pronta.
Nunca.
Os olhos sempre abertos; ela nunca dorme.
Tem medo de mudar a pagina, de sair da linha.
Com os olhos abertos tudo permanece igual.
Mas basta uma piscada pro eterno se tornar efêmero.
Arrisca?
