quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Mal necessário

Quando eu a vi ali, dançando em minhas mãos, eu quase não acreditei. Desacreditei total. Crise total! Murmurei alguma coisa, qualquer coisa, com os olhos comprimidos de ódio; peito aberto qual fratura exposta — doía e sangrava tanto quanto. Não cicatrizava. Não cicatrizaria nunca, eu sabia. E no momento me tornei a pessoa mais burra do mundo. Idiota que nasceu sabendo que pedra atirada no vidro resulta em cacos e, ainda assim, encheu de pedras a mão do garoto na rua e disse: atira!
Cacos.
Fiquei olhando para ela, sentada na palma da minha mão, e passei a ouvir zumbidos que jamais foram ouvidos. Vinham de longe ou de dentro ou de lugar nenhum, mas vinham eu sei que eles vinham e que, agora, viriam todas as noites. Eram muitos e, todos, diferentes; traziam-me aquela antiga sensação de sentir qualquer coisa que jamais se quis sentir ou pensou sentir ou apenas sentiu. Qualquer coisa, sem sentido ou não.
Os olhos já se encontravam dilatados de puro ódio e o coração se comprimia em medo.
Um medo puro que me cortava de cima a baixo quando eu a via jogada em minhas mãos, quando eu, de fato, sentia que ela estava ali, que era minha e não iria embora. Pensei em tirá-la a força, meu deus.
Por DEUS!
Pensei em autopsia, dissecação, faca amolada e até bala perdida.
Pensei em tudo; em todos.
Até perceber que seria inútil; eu estava mais dentro dela do que ela dentro de mim. Era eu quem deveria tê-la deixado em paz, eu quem deveria ter ido embora ou, talvez, nunca ter tocado em tal fogo ardente. Tarde demais, não é?
Tarde demais: a única coisa que todos pensam quando tudo deu errado.
Eu pensei; e estava com a razão.
Acordei e a vi ali, dormindo em minhas mãos, ressonando tranqüila, com cara de gente feliz, com aquele jeito de quem veio pra ficar e que não iria embora por qualquer incisãozinha. Foi esperta; apareceu no meio da noite para não lutar contra minha recusa, para não haver recusa alguma.
Merda!
E eu, agora com a sensação me socando o rosto, acarinho suas formas de Menina-moça que virou Mulher. Ela, a Certeza, havia se tornado enorme diante dos meus olhos; e como todas as certezas que aparecem de súbito, no meio da noite, não vão embora, fui obrigada a optar pela única opção que me restara: aceitar.
Aceitei.

5 comentários:

http://jackanapesjerusalem.blogspot.com/ disse...

Estou acompanhado.

Amanda disse...

eu adoro seus textos.
sempre *o*

mille. disse...

Ela sempre faz questão do meu comentario, então : OTIMOOOO SEU TEXTO SUA EMOMAuAMADA, como sempre. Não sei onde me sai tantas ideias dessa mente :D

um beijãoooooooo :*

M i h disse...

Essa emile ta ficando folgada, bicho. Vou te excluir do meu msn. hahaha
*arlequim*

B. disse...

é dificil aceitar,é arduo.ainda mais quando estamos envolvidos quando a dor lateja o nosso corpo!