domingo, 25 de abril de 2010

Da janela da frente

Sempre a vejo lá, linda. Debruçada sobre aquela janela verde, procurando com seus olhos rápidos, e inquietos, qualquer indício de possibilidade. Vasculha a rua toda, desvenda cada corpo que por ela ousa passar. Eu a vejo lá, linda, e visto daqui o lá se torna tão longe e o verde chega a ser ralo devido a distancia. Mas é verde. Um verde bonito e um tanto sujo pelos braços da moça triste. Há dias em que sua tristeza inunda a rua e eu quase choro.

Parece minha aquela solidão...

Uma solidão tão singela e singular que se veste de uma beleza desigual.

A moça linda e triste é completamente desigual.

Quisera eu que aqueles olhos me despissem e me revelassem. Quisera eu me aproximar daquela janela verde que de perto deve ser tão mais verde e tão mais janela. E ela permanece lá, fingindo ser inócua a qualquer coisa, a qualquer custo. Fingindo não saber que o seu olhar entorpece todos que por ali passam e que o seu cheiro acompanha todos os corpos e penetra a memória como algo impossível de esquecer. Totalmente inesquecível.

Enquanto ela passa a vida fingindo... Fingindo que não provoca reação alguma nas pessoas que a cercam e que a janela verde não faz com que os seus olhos melados sejam tão mais mel e tão mais doce e que não faz nada para encantar a enfeitiçar a alma dos que a procuram por toda a parte. Passa a tarde fingindo que eu não sou inteiramente sua. Passa a tarde inteira me olhando sem me ver. Passa a vida fingindo não se importar com os deslizes e acasos decorrentes. E eu passo a vida toda por ela, porque uma única vez ela passou por mim. E foi intenso. Tão intenso que ela não soube voltar pra casa e eu, egoísta que sou, não mostrei o caminho de volta. Tudo para mantê-la aqui, quente, como uma canção que nos remete a momentos bons. Ela é o meu momento bom; a janela verde que fica tão mais verde e mais janela quando me aproximo; seus olhos tão lindos e melados e invasores. Posso ver os beijos flutuando sem alcançá-la, milhões deles vindos de todas as partes. Eu fecho os olhos como se assim ela pudesse ser somente minha e intocável. Mas daqui ela parece estar tão longe e o verde parece ser tão ralo...

Por vezes eu gritei para acordá-la desse transe da solidão, mas ela não ouve, ela finge não me ouvir.

E assim se seguem os dias...

Passo as minhas tardes procurando um modo de torná-la minha, querendo-a como jamais quis alguém, enquanto ela segue fingindo não merecer uma gota sequer desse amor...


há coisas que a gente não pode controlar e, eu, tô descobrindo isso de uma maneira tão doce..

5 comentários:

Amanda disse...

são 02:50, eu no notebook, uma garrafa de vodka e um coração apertado.
ouvindo uma música qualquer triste que na hora eu nem reparo na letra e penso comigo mesma: onde eu vou achar alguém que me entenda?
aí eu lembro do seu blog e venho aqui, apenas pra ter a certeza de que vim no lugar certo.
e leio o que você escreveu e como todas as vezes foi a coisa certa.
e se encaixa, se enquadra e sempre me adiciona algo.
mas eu vou fazer diferente, vou me aproximar da janela e olhar nos olhos melados e dizer que gosto do verde.

Milena Torres disse...

lindo, lindo!
adorei o seu blog! (:
;**

Roberta Albano disse...

Olá!
Como você é seguidor(a) do blog Paperback Writer estou dando uma passadinha para avisar que o blog voltou a ativa! Com novo template e uma poesia inédita já foi postada!!
Tenha um ótimo dia!
http://lettersalbano.blogspot.com/

Rhaissa disse...

Essa parece que não entende que deve jogar as tranças pela janela xD
Ah... que lindo. Gostei!

Beijao Ca

Isabelle disse...

Muito lindo. Eu entendi profundamente.