Eu tenho uma caixa. Não, não é uma caixinha de musica, nem uma caixa de presente. Nada disso. É simplesmente uma caixa. Uma enorme caixa. Uma linda caixa por assim dizer. Ela está lacrada e lotada. Cheia de coisas que não são minhas, cheia de rascunhos antigos e fotos de pessoas que não conheço. Cheia de coisas do passado, de outra pessoa que não eu. Eu tento todos os dias, incansavelmente, abri-la. Tento colocar coisas novas dentro dela, fazer com que ela se torne minha de vez e que aloje as minhas coisas, as minhas angustias, os meus medos e sentimentos soltos. Mas como eu já disse, ela está lacrada. E está tão cheia, mas tão cheia, que tenho certeza que por mais que eu a abra minhas coisas não serão bem vindas ali. Há coisas demais de outra pessoa, há vida demais dentro dela. E uma vida que não é minha, entende? É nessas horas em que eu me pergunto: o que esta caixa está fazendo em minhas mãos? Eu não sei, mas não consigo soltá-la. Às vezes eu a ouço dizer, sem palavras, que é isso que ela quer, que quer que eu a solte de vez, que eu a entregue para seu antigo dono e que só ele sabe como cuidar, como abrir, como guardar suas coisas ali dentro. Ele, sim, sabe tudo e eu, eu nada sei. Tenho medo de desistir, tenho medo de soltá-la no meio do caminho. Tenho um medo enorme de realmente nunca saber.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
quinta-feira, 15 de julho de 2010
16.07
Venho perdendo pedaços pelo caminho.
Às vezes grandes, noutras pequenos, mas sempre pedaços.
Eles são tão meus que por vezes chego a não me reconhecer.
É tão estranho...
Pessoas e desejos escorrem pelas minhas mãos feito água. Eu não sinto falta, não reclamo. Apenas perco sabendo o que estou perdendo.
Não dói.
Perder não é doloroso.
Dizer tchau, sim, me machuca, por isso quase nunca me despeço. Dizemos não, mas nunca tchau. Então fica por dizer, por sentir. Nos perdemos sem maiores estragos. Acontece sempre. Me consolo dizendo que nada é meu e que eu não sou que tudo pode acontecer e que acontece sempre com todo mundo. Milhares de pessoas se encontram e se perdem durante a vida.
Talvez viver seja isso, um não sentir eterno ou um sentir demais.
Eu não me importo, só não quero fazer mal aqueles que eu quero bem.
Já fiz tanto mal, sem querer e por querer. Já segurei tantas mãos e no minuto seguinte dei as costas. Algumas pessoas jamais me perdoarão pelo o que eu não fiz. Algumas são receosas por eu não sentir. Sempre pessoas, sempre um punhado delas. Esperam tanto de mim, esperam que eu não as machuque e não lhes faça mal. Me pedem pra ser sincera e fazer bem e dizer sempre a verdade e sorrir a cima de tudo. Sorriso não se pede. Sinceridade não se pede. Nem carinho e respeito, sabia? Tudo se conquista. Nada é oferecido sem propósito algum. Não sinto vontade de sorrir para aquele que com atitudes me esbofeteia a cara todo dia. Eu tenho os meus limites. Eu sou sensível, embora não demonstre sentimentos claros e sempre diga meias verdades.
Eu vivo me machucando e achando que sangrar é normal, vivo ferida acreditando que toda felicidade vem embrulhada num papel fino de tristeza.
Sou descrente, talvez.
Por isso esse meu jeito torto de amar. Esse sentimento ralo e pobre que eu tenho vergonha de expor. As pessoas, as malditas pessoas, pisam na minha demonstração de afeto e acabam com tudo. Algumas ainda exigem o dobro, como se eu pudesse redobrar o que eu sinto só por querer. Eu não sei sentir. Qualquer sentimento parece ser forte demais pra mim. E mesmo parecendo ser demais, para alguns ele não é suficiente. E para mim é o fim. Cansaço. Cansaço imenso...
Os pedaços caíram sem que eu pudesse evitar, e quando dei por mim só havia uma caneta na mão e um sentimento estranho no peito.
Talvez eu goste tanto que faça do meu tanto tão pouco para que nada seja desperdiçado. Não quero perder esse pedaço, mas às vezes parece que eu não tenho outra saída senão ceder.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
05.07
Não tenho escrito por medo de escrever.
Antes eu pensava que com a caneta na mão eu poderia fazer o que eu bem entendesse, afinal eu comandava. O papel era meu. A caneta estava em minhas mãos. E a letra era minha. E, agora, estranhamente tudo permanece pateticamente igual. Nada mudou. Apenas esse medo idiota surgiu. Uma barreira que me obriga a engolir o que há muito está parado na garganta. Aquele grito que com o tempo emudeceu.
Venho me tornando uma pessoa covarde e, por covardia, me deixo ser.
Eu sei, eu sei que ninguém pode entender.
Eu não entendo. Para ser sincera não venho buscar entendimento nos olhares que me cercam. Só preciso suprir essa necessidade por palavras soltas. Palavras minhas. Minha necessidade. De mim. Para mim.
O telefone tocou, sabia?
Tocou e toca diariamente, várias vezes ao dia. Ela me procura. Ela me deseja. Julia aceitou meu amor ralo e quase miserável. Ela aceitou, me aceitou, nos aceitou, por assim dizer. E eu que a queria tanto, que a pintei com as cores preferidas dos meus olhos, a fiz perfeita nessas linhas e em seus detalhes, me recuso a aceitar. Não que eu não a queira como antes, como sempre. Eu a quero ainda mais, e esse é o problema, entende?
Julia me fez sentir coisas que jamais imaginei sentir. Julia faz com que o telefone toque e eu gosto e espero e conto os dias, as horas, às vezes até os segundos. Não mais desejei me desligar do mundo e me esconder dentre as cobertas para me fazer invisível. Quero ser visível aos seus olhos. Quero ser notada. Notável.
Julia de fato aconteceu, senhores.
E o meu medo vem com ela.
Passo as tardes com medo de errar. Passo dias. Um sentimento que poucas vezes me acompanhou agora me persegue. Tenho medo de errar com o que, mesmo de longe, parece meu único acerto. Acertei ao encontrá-la, ao conhecê-la, ao fazê-la minha. Acertei tão em cheio que agora já não consigo andar com medo de errar os passos. E, acredite, com essa ânsia por acertos, venho errando cada dia mais. Ela aponta os meus erros, vive a dizer que eu não estou pronta e que eu não entendo e que as coisas do meu ponto de vista se tornam sem razão. E eu, pra variar, tenho medo de acreditar nessas suas certezas e aceitar que eu realmente não estou pronta.
Talvez eu não esteja, Julia: digo.
Mas me diz você, quem está? Quem disse que era necessário estar pronto?
Eu não sei, Julia: digo sempre.
Eu nunca sei, ou finjo não saber...
Os meus pensamentos são de Julia; o meu corpo, meus olhos, meus desejos e sentimentos mais bonitos. As minhas palavras, não. Essas são minhas e quase nunca as solto pra ninguém.
Eu tenho muito medo de errar. Não escrevo por isso, não caminho, não me entrego... Não amo.
Talvez eu esteja perdendo um grande tempo com esse medo de ter medo de ter medo. Talvez Julia nem queira ser amada como eu desejo amá-la um dia.
Julia não está pronta, entende?
Não, ninguém entende.
Mas tudo se resume a Julia.
Os dias; o tempo; os beijos; o telefone que toca; a cama vazia no meio da semana; os filmes não vistos; as brigas; as noites mal dormidas; os carinhos; os livros; os desejos; as conversas; a minha vontade de gritar. Tudo é Julia.
Julia se resume em Julia e ponto. Pronto.
No fim a gente sempre recomeça, no fim ela volta para os meus braços e eu volto a dizer que sou somente sua. Digo tudo, prometo mil coisas e até juro não dizer aquela tal frase que pode acabar com tudo. Eu me contenho, sei fazer isso. Mas às vezes parece que se não digo não posso sentir.
Talvez ela tenha razão.
Talvez eu não esteja pronta, não entenda, e veja tudo de um jeito torto.
Talvez tantas coisas...
Mas o medo de escrever ainda não foi embora e, agora, só me resta jogar essa caneta em suas mãos.
domingo, 27 de junho de 2010
(79) dias
Me encontro na linha tênue entre dar a mão e virar as costas. Me equilibro nessa linha oscilante, às vezes até com um guarda-chuva na mão. Sempre sorrindo, é claro. Sorrir é muito importante quando não se sabe o que está fazendo e não tem a mínima certeza sobre o próximo passo a ser dado. Tenho vontade de sair correndo, deixar linha tênue, guarda-chuva, certezas e incertezas e voltar para casa, para um lugar confortável, onde eu possa fechar os olhos e fingir que tudo não passou de um sonho. Ótimo. Perfeito. Se é tão fácil assim, só me resta voltar. Então, com todo cuidado do mundo, desço da corda bamba, jogo fora o guarda-chuva, jogo no bolso os pedaços de verdade, me despeço do publico e me vou. Nessa hora o alívio devia inundar meu corpo, afinal agora eu tenho todo o espaço da solidão para respirar.
Era pra ser assim...
Tinha de ser assim...
Se o meu coração não tivesse ficado lá, nas mãos daquela garota que sorri bonito. Se ela não o tivesse mordido, se não tivesse pego essa merda de aparelho pulsante e enfiado no bolso. Se ao acordar os pensamentos não fossem para ela e as primeiras palavras que chegassem aos meus ouvidos não tivessem o som da sua voz, talvez ,assim, eu ficasse aliviado, eu pudesse respirar. Mas no momento eu estou em casa, morto de saudade, e cheio de vontade de voltar para minha brincadeira do equilíbrio só pra encontrá-la. Morto de vontade de dizer que eu não quero que devolva meu coração mordido, mas que agora ela terá que ficar comigo também, conosco. Que além de ser a garota da platéia com sorriso bonito, ela é a minha quase bailarina. A única no picadeiro. A graça dentre as inúmeras pessoas sem graça e desinteressantes que assiste ao meu show.
Eu sei meu bem, eu sei: não exija o eterno do perecível.
Eu não exijo, só desejo.
E descubro que algumas vezes ser amado é importante. E o que eu venho sentindo me faz bem.
No nosso caso acredito na reciprocidade, mesmo essa ficando escondida às vezes.
No nosso caso será eterno – ou efêmero, não sei; só quero que seja bonito e que eu não caia jamais.
terça-feira, 22 de junho de 2010
segunda-feira, 7 de junho de 2010
quinta-feira, 3 de junho de 2010
aconteceu
Venho tentando me enquadrar nesse quadro que me encontro sem saber por que, sem saber se há um por que. Venho tentando me manter forte, manter a cabeça no lugar e não tomar nenhuma decisão precipitada. Mas às vezes é tão difícil. É tudo tão difícil. Sempre que fecho os olhos a mesma coisa aparece em minha mente. A mesma cena, as mesmas atitudes. Me encontro cansada. Cabeça dispersa e coração machucado. Me encontro perdida e já não sei que caminho tomar... Escrever já não alivia, confunde. Crise geral.
domingo, 23 de maio de 2010
Let me get what I want
Eu gosto do tempo. Ou de tempo. Não sei. Mas eu gosto, sim, gosto. Só não sei a intensidade. Se é muito ou muito pouco eu não sei. O que eu tenho certeza é do medo que sinto de sua densidade. Morro de medo dessas coisas rápidas demais que acontecem no momento exato de uma piscada, sem nos dar a mínima chance de ver. Transformam-se e pronto. Ponto. Passam de suposição a acontecido enquanto na boca fica aquele gosto ralo de estranheza. A estranheza é abundante, somente o gosto é ralo. Tão estranhamente ralo que chega a ser uma vertigem. A vertigem do acontecido que ainda seria suposição se eu não tivesse piscado.
Não pude evitar.
Há coisas que não se podem evitar e por vezes não há como alcançá-las e nem o porquê persegui-las. Deixe-as livres: digo. A liberdade é a mais eficaz de todas as prisões.
No mais estou sem tempo, sem animo e sem muitas esperanças. Como as três coisas nunca me foram úteis, estou bem. Não há motivos pra eu carregar esse sorriso no rosto, não é? Há um. O sorriso é meu companheiro. Passou por aqui, nos demos bem e ele ficou. Normalmente é assim: agarro o que me cativa e deixo o restante passar.
Talvez esse tal tempo cure tudo e transforme todo sofrimento
O tempo também cala.
Silencio absoluto.
Tudo bem, não tem pressa. Não temos pressa. Só preciso que decida se quer que eu saia a sua procura ou que eu esqueça seu gosto de vez.
Quem sabe? Talvez o tempo...
Eu gosto do tempo. Ou de tempo. Não sei.
Talvez eu precise de um pouco de tempo. Talvez eu precise mesmo é esquecer o relógio. Perder a hora. Perder a cabeça. Enlouquecer... Me esquecer.. ... Me perder... Te encontrar!
terça-feira, 18 de maio de 2010
...
meu coração veio à boca, e foi então que eu percebi: odeio gosto de coração. ainda mais do meu. ainda mais assim, acelerado, descompassado, fora de forma. eu fico contando as batidas, tentando pegar no sono, morrendo de um cansaço que por pouco não seria meu. se eu fizer silencio posso ouvi-lo bater, meio sem jeito às vezes, mas com aquele ar despretensioso de quem não sabe a que veio. não sabe pra onde vai e no momento... ah, no momento ele está quebrado. e só.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
madrugada
São 02h19min da manhã e dentro de mim explodem fachos de coisas que eu não posso controlar e nem nomear. 02h19min de uma quarta-feira que provavelmente nascerá cinza, mesmo se houver sol e esse sol for amarelo e quente. Os meus olhos se encontram cinza. há muito eu tento os controlar para não deixar meu jogo ser entregue, mas foi tudo
Os monólogos me perseguem.
Mesmo rodeada de pessoas eu vivo falando sozinha.
Acabei de descobrir que por menos angustiante que seja a minha situação, fumar um cigarro já não alivia. Não consigo consumir metade daquela fumaça que outrora me nutriu. Descobri que eu sempre vou ter muito que falar e, por isso mesmo, vou permanecer calada até o fim. Vou me magoar e continuar dizendo que está tudo bem, que eu não ligo não me importo; e no fundo pode ser que esteja realmente tudo bem, porque ás vezes deixar tudo bem dói um pouquinho, não é?Eu entendo. Até aceito sem reclamar. Quando reclamo me sinto acuada e envergonhada, parece que eu tenho o dom de nunca ter razão.
Mas hoje, não. Hoje eu só quero não pensar em nada e esquecer o que vem me machucando e confundindo. Quero não pensar na dor da ausência e no caos da presença. Eu juro, jamais quis que tudo fosse assim. Talvez eu tenha o dom de me importar com a pessoa errada. Mas eu queria, um pouco que fosse, que se importasse comigo e que entendesse que eu preciso de atenção e carinho e entendimento. Eu tenho mais sentimentos do que demonstro ter; e tenho medo de um dia não saber demonstrar sentimento algum. Eu gosto tanto dos momentos que são nossos. De como segura a minha mão e diz que sou boba e que não devo me preocupar com as pequenas coisas. Gosto das palavras direcionadas a mim. E não me importei quando me disse "me ame se quiser, mas eu não vou amar você”. Não penso em amar ninguém. Não sei amar ninguém.
Mas não gosto de envolvimentos pela metade. É um problema ser extremista.
Mas hoje, não. Hoje eu estou triste, tão triste que não sei como agir diante a tanto descaso. Não, eu não reclamo. Tento aceitar o que é me dado sem exigir nada além do que ela pode me dar. Só me sinto destroçada quando ela exibe tudo o que é capaz de fazer e sentir e não me dá uma migalha sequer disso tudo. Mas eu não digo nada. Não posso, e não quero cobrar nada de alguém que nem sequer é minha por inteiro.
Eu não tenho ninguém. Eu não sou de ninguém.
São 02h41min e os fachos ainda me cortam. Vejo as pessoas que a amam e exibem seus amores concretos e perfeitos enquanto eu nem sei o que amar significa. Contribuo apenas com o meu sentimento ralo, feio e quase inadequado. Um sentimentozinho insignificante, eu sei, e ela se importa com a pequenez. Cobra tudo. Exige atenção e carinho e presença enquanto me dá as costas e me deixa no frio sem se despedir.
Mas hoje, não. Hoje eu só estou triste, e não quero compartilhar da minha tristeza para fazê-la triste também. Quero que ela me faça feliz, que me mostre que estou errada e que ela se importa e que eu sou realmente uma boba. Mas é muito difícil quando se vive num monologo. Eu posso ser triste, feliz ou indiferente que ela vai continuar irredutível e imóvel na sua redoma de vidro. Eu posso gritar e chorar e pedir que me salve... Mas ela sempre terá razão ao dizer que eu não tenho razão alguma. E eu não tenho, por isso permaneço calada. Desanimada. Triste. Desgastada. Parece que está morto o que eu nem vi nascer. Eu tento ressuscitá-lo com a esperança de que ele renasça belo, mas a cada dia a sinto mais distante e a esperança sempre morre por aqui.
Mas hoje, não. Hoje é quarta-feira e eu estou triste. Estou apática e quase morta. Às vezes sinto vontade de chorar e ligar no meio da madrugada e dizer tudo o que eu nunca saberei como dizer. Às vezes tenho vontade de desligar o telefone e sumir, desaparecer, até ela sentir minha falta – se é que sentirá.
Mas hoje, não.
Hoje eu só estou triste e seca por dentro. Meus cabelos estão molhados e minhas roupas têm cheiro de saudade. Aquela certeza de que o dia nasceria cinza já se tornou um fato.
Uma quarta-feira cinza pra mim, para purificar meu corpo do pecado de não saber... Não saber... Não sei.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
Da janela da frente
Sempre a vejo lá, linda. Debruçada sobre aquela janela verde, procurando com seus olhos rápidos, e inquietos, qualquer indício de possibilidade. Vasculha a rua toda, desvenda cada corpo que por ela ousa passar. Eu a vejo lá, linda, e visto daqui o lá se torna tão longe e o verde chega a ser ralo devido a distancia. Mas é verde. Um verde bonito e um tanto sujo pelos braços da moça triste. Há dias em que sua tristeza inunda a rua e eu quase choro.
Parece minha aquela solidão...
Uma solidão tão singela e singular que se veste de uma beleza desigual.
A moça linda e triste é completamente desigual.
Quisera eu que aqueles olhos me despissem e me revelassem. Quisera eu me aproximar daquela janela verde que de perto deve ser tão mais verde e tão mais janela. E ela permanece lá, fingindo ser inócua a qualquer coisa, a qualquer custo. Fingindo não saber que o seu olhar entorpece todos que por ali passam e que o seu cheiro acompanha todos os corpos e penetra a memória como algo impossível de esquecer. Totalmente inesquecível.
Enquanto ela passa a vida fingindo... Fingindo que não provoca reação alguma nas pessoas que a cercam e que a janela verde não faz com que os seus olhos melados sejam tão mais mel e tão mais doce e que não faz nada para encantar a enfeitiçar a alma dos que a procuram por toda a parte. Passa a tarde fingindo que eu não sou inteiramente sua. Passa a tarde inteira me olhando sem me ver. Passa a vida fingindo não se importar com os deslizes e acasos decorrentes. E eu passo a vida toda por ela, porque uma única vez ela passou por mim. E foi intenso. Tão intenso que ela não soube voltar pra casa e eu, egoísta que sou, não mostrei o caminho de volta. Tudo para mantê-la aqui, quente, como uma canção que nos remete a momentos bons. Ela é o meu momento bom; a janela verde que fica tão mais verde e mais janela quando me aproximo; seus olhos tão lindos e melados e invasores. Posso ver os beijos flutuando sem alcançá-la, milhões deles vindos de todas as partes. Eu fecho os olhos como se assim ela pudesse ser somente minha e intocável. Mas daqui ela parece estar tão longe e o verde parece ser tão ralo...
Por vezes eu gritei para acordá-la desse transe da solidão, mas ela não ouve, ela finge não me ouvir.
E assim se seguem os dias...
Passo as minhas tardes procurando um modo de torná-la minha, querendo-a como jamais quis alguém, enquanto ela segue fingindo não merecer uma gota sequer desse amor...
há coisas que a gente não pode controlar e, eu, tô descobrindo isso de uma maneira tão doce..