Ao adentrar aquela igreja e vê-la deitada, estática, em meio a tantas flores, o meu coração veio à boca; senti, por horas, o gosto daquele órgão pulsante tocando minha língua. As lagrimas surgiram involuntariamente e, eu, me encontrei parado ao lado daquele caixão, beijando, desesperadamente, aquela boca já sem vida, fria como nunca fora e roxa como sua cor predileta. As horas passaram e eu não pude sair dali um momento sequer; estava grudado ao chão.
A igreja estava tomada por pessoas e pessoas e mais um bocado delas, enquanto eu me sentia sozinho com a lembrança de dias, ensolarados, em que aquela mão estava quente, como o sol, e que a mesma boca que agora beijo, com avidez, me dizia: - será para sempre. Agora tudo se resume em um corpo numa caixa de madeira; nunca mais verei aqueles olhos verdes e, tampouco, ouvirei sua voz fina reclamar da minha barba, por fazer, que roçava, por pirraça, sua pele branca. Os dias em que dormimos e acordamos juntos se findaram; e não posso me enganar acreditando que ela voltará amanhã ou semana que vem ou, quem sabe, no próximo mês.
Ela não vai voltar; nunca.
Não voltará para ver nosso jardim florescer na primavera; para cuidar da Zan que teve filhotes na semana passada; para dizer que me ama e que tudo ficará bem.
Não.
Agora algumas pessoas me puxam e outras tapam aquele rosto, lindo, que eu só verei em fotos.
Choro.
Me desespero, e tento impedi-los, em vão.
– Vamos ao enterro – alguém diz.
E eu começo a prestar atenção nas vozes que me cercam.
– Ela era tão jovem!
– Que pena, tinha uma vida inteira pela frente...
– Como aconteceu essa tragédia?
Tenho vontade de gritar para que todos se calem e respeitem o silêncio da minha dor. Maurício coloca as mãos em meu ombro e eu sinto que a pior hora está por vir; caminhamos até o cemitério e, lá, em meio aos prantos, deixamos o corpo que me amou por todos esses anos.
Não tenho forças para dizer nada, não tenho nada; não tenho a mim.
Volto para casa como um morto e vejo o nosso retrato envolto por aquela moldura de que ela gostava; eu gostava dela, a amava; tanto. Choro pelos filhos que não tivemos, pela segunda Lua-de-mel, em Veneza, que deixamos para o próximo mês; choro por todas as pessoas que não tiveram o prazer de conhecê-la e, por mim, por tê-la perdido sem ao menos poder me despedir.
Num puro ato de desespero pego as chaves do carro e paro em frente aquele museu de cadáveres, entro no cemitério e deito em cima de sua sepultura; como se assim eu pudesse sentir seu corpo pela ultima vez. As lagrimas fogem dos olhos e as palavras, antes sussurradas, chegam aos meus ouvidos rapidamente e em alto e bom tom; digo tudo o que eu sempre quis dizer e não disse, abro meu coração derramando, ali, todo o meu amor; sinto um calor enorme me invadir, sinto a presença indiscutível de Luíza e sei que se haviam outras almas naquele lugar elas estavam quentes e emocionadas como eu.
Me despedi.
Finalmente me despedi como deveria ter sido e saí de lá com a certeza de que ela me responderia de alguma forma.
Respondeu.
No dia seguinte, mexendo nos pertences daquela que fora minha amada, e amante, por longos, e felizes, anos, encontro um livro antigo e empoeirado; ao folheá-lo me deparo com linhas sublinhadas que diziam claramente: “o verdadeiro amor não precisa ser dito, é necessário senti-lo e só”.
Ao lado a letra engraçada de Luíza ousou um comentário singelo: “Eu sei”.
E desde então eu soube;
E desde então “Sabemos”